segunda-feira, março 29, 2004

Presos «à experiência» - Voluntários??!!

A Escola de Criminologia vai testar comportamento humano dentro de celas e valor dos testemunhos


A Escola de Criminologia do Porto vai instalar celas com grades dentro do laboratório e angariar voluntários para uma experiência destinada a estudar as reacções psico-biológicas à reclusão.

«Vamos testar o funcionamento do cérebro quando sujeito a experiências intensas, como sejam o interrogatório ou a reclusão», explicou o director da Escola, Cândido da Agra. «Queremos fazer o estudo com pessoas que nunca tenham sido presas», razão pela qual a iniciativa decorrerá fora dos estabelecimentos prisionais.

Outra experiência prestes a arrancar visa avaliar a veracidade dos testemunhos. Para isso, o laboratório da Escola criou um espaço com quatro janelas, onde quatro pessoas diferentes ficarão sujeitas à exibição de imagens.

Em cada uma destes habitáculos será colocada uma pessoa, e todas verão as mesmas imagens. Às «cobaias» pede-se que descrevam a pessoa visionada.

«A experiência mostra que os testemunhos divergem bastante. Há quem veja um homem, uma idosa, uma mulher jovem. Quanto vale um testemunho, é o que queremos saber».

Portugal não tem tradição de investigação nesta matéria, «nem recebemos formação na valoração da prova», lamenta.

Pegando no mediático exemplo da «Casa Pia», este professor estranha que os pedopsiquiatras e psicólogos «venham para a praça pública» valorar testemunhos sem terem qualquer formação nessa matéria. Tudo para concluir que temos uma «justiça amadora e intuitiva» que lida com o crime sem o conhecer.

Criminologia vai dar lugar a licenciatura (isso é que vão ser - mais - doutores aó por todo o lado)

Experimente perguntar a um juiz ou a um guarda prisional o que é um delinquente e verá que «ninguém sabe. Todas eles lidam com um fenómeno que desconhecem completamente», garante o professor de psicologia e criminologia da Universidade do Porto.

«Portugal é o país que mais fala de crime, que mais medo tem do crime, segundo os estudos realizados, e o que mais ignora o crime como objecto de estudo científico», critica ainda o docente associado da Universidade de Montreal, no Canadá. Neste país, por exemplo, «não há director de cadeia que não tenha um curso de criminologia».

Confrontado com a «formação muito insuficiente» daqueles que lidam de perto com os criminosos - dos juízes aos guardas prisionais, passando pelos técnicos do Instituto de Reinserção Social - Cândido da Agra quis inverter a situação. Avançou, então, com a escola de criminologia.

Nasceu em Março de 96 e, até ao momento, é a única escola do género no país. Funciona dentro da Faculdade de Direito do Porto que é, de resto, a única a incluir a cadeira de criminologia no seu curriculum obrigatório.

Tem mestrados e doutoramentos e no próximo ano vai arrancar com a licenciatura em criminologia.

Por aqui passam, anualmente, cerca de 25 pessoas, entre agentes da polícia, juízes, licenciados em direito, psicólogos e assistentes sociais.